O movimento da vida é bonito. Ele coloca pessoas novas no
nosso caminho o tempo todo. O problema é que, quando carregamos algumas
cicatrizes, começamos a confundir proteção com medo. E, sem perceber, passamos
a impedir que histórias aconteçam antes mesmo de elas terem a chance de
existir.
Theodora tem vivido tanto que anda cansada. Cansada de sair. Cansada de conhecer gente. Cansada de romances. Cansada mesmo.
A vida de solteira pode ser divertida, mas também é
exaustiva. O que mais a desgasta nem são os términos, as decepções ou os
desencontros. É o começo.
Toda história começa do mesmo jeito: as primeiras mensagens,
as mesmas perguntas, os mesmos assuntos. Um ritual que se repete tantas vezes
que, em algum momento, deixa de ser empolgante e passa a parecer um trabalho.
Ela não quer ninguém e também não está procurando um grande amor.
O que ela quer, neste momento, é descobrir quem é quando não
está tentando ser suficiente para alguém. Ela tem se sentido mais bonita. Tem sido desejada. E isso mudou a forma como passou a olhar para si mesma. Pela primeira vez em muito tempo, percebeu que o valor dela nunca esteve na escolha de alguém. A confiança voltou. E, com ela, uma versão de si que parecia adormecida.
Nesse tempo "sozinha", conheceu o Pedro, o Paulo e
o Elias.
Pedro era uma antiga obsessão. Durante muito tempo ela
acreditou que precisava vivê-lo. Quando finalmente viveu, percebeu que, às
vezes, a expectativa é muito maior do que a realidade. Não havia mais nada para
descobrir. A curiosidade acabou, e ele também.
O Paulo ela não sabe explicar direito. Não era amor. Nem
paixão. Era desejo como o Pedro também foi. Mas esse era diferente, um desejo
tão intenso que, às vezes, o corpo chegava a tremer só de imaginar. Havia uma
curiosidade quase desesperada, uma vontade de viver aquilo que ela não
conseguia racionalizar. Precisava acontecer. Não porque enxergasse um futuro,
mas porque sentia que, enquanto não acontecesse, aquela história continuaria
ocupando um espaço grande demais dentro dela.
E aconteceu. Foi gostoso. Foi exatamente o que ela
imaginava. E só.
No dia seguinte, já não havia ansiedade, expectativa ou
saudade. Ela não queria repetir. Não queria construir nada dali. Só precisava
viver aquele momento para que ele deixasse de existir na imaginação.
Foi quando entendeu que alguns desejos não pedem
continuidade. Pedem apenas para serem vividos.
Já o Elias era canceriano, como ela. Dizia que a queria.
Queria muito. Insistiu, conquistou alguns beijos, despertou curiosidade. Mas
bastou perceber que ela também estava interessada para se afastar. Disse que
não queria um relacionamento. Ela sorriu. Porque, curiosamente, ela também não
queria. Ela só queria descobrir se ele era tudo aquilo que parecia ser.
Às vezes, Theodora se pergunta quando ficou tão fácil deixar
alguém ir. Durante anos, foi ela quem insistiu, esperou, tentou entender,
procurou explicações para silêncios que nunca seriam respondidos.
Hoje, ela simplesmente aceita. Não porque deixou de sentir. Mas
porque aprendeu que nem toda conexão precisa durar. Algumas pessoas chegam
apenas para ocupar algumas páginas da nossa história. E tudo bem.
É engraçado como a vida gira rápido. Parece uma bola nos pés de um atacante nos minutos finais de uma decisão. Quando a gente pensa que entendeu para onde ela vai, ela já mudou de direção outra vez. Mas, nessas voltas
importantes que a vida dela tem dado, às vezes Theodora ainda se pega lembrando
do Léo.
A comparação é inevitável. Nessas histórias sem compromisso,
leves e sem qualquer vontade de continuação, ela percebe uma diferença que
antes não conseguia enxergar. Com o Léo havia amor. Dos dois lados. Mesmo que
ele nunca tenha conseguido admitir. Mesmo que, em muitos momentos, não soubesse
escolhê-la.
Era diferente. Mas lembrar não significa querer de volta. As
lembranças ainda vão caminhar com ela por algum tempo. Elas não pedem licença.
Aparecem numa música, numa rua, numa conversa qualquer. Depois desaparecem de
novo.
É normal. Afinal, existe um tipo de luto que não acontece
porque alguém foi embora da vida. Acontece porque alguém continua vivo, mas já
não faz mais parte dela. Talvez esse seja o luto mais difícil de todos. Não o
de quem morreu. Mas o de quem continua existindo em algum lugar do mundo,
vivendo a própria vida, enquanto você precisa aprender a viver a sua sem aquela
pessoa.
Léo continua vivo. E,
aos poucos, Theodora também.
A vida não parou enquanto ela aprendia a deixá-lo ir.
Continuou colocando pessoas no caminho, criando encontros, despedidas e
pequenas descobertas sobre si mesma.
Ela ainda não sabe quem vai encontrar amanhã. Nem precisa. Ela
está vivendo o caminho. E o caminho também é um lugar.

