quarta-feira, 24 de junho de 2026

Inferno astral

 Ontem foi aniversário da Théo e hoje tive uma conversa franca com ela sobre a vida e suas particularidades. Sobre aquilo que muitas vezes julgamos essencial, quando, na verdade, talvez não seja tanto assim.

Já sabemos que o que se leva desta vida é a vida que se leva, mas, no fundo, todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite e com Theodora não é diferente. Assim como nós todas, ela espera um romance, um carinho, uma mensagem, uma atenção especial.

 E, para ser sincera, nem é só aos sábados. Quase sempre buscamos alguém para dividir os dias, os momentos e até os silêncios.

Diante disso, sabe o que eu disse à Théo? Que essas coisas costumam acontecer quando não estamos procurando. Quando a vida está leve, quando o coração está em paz e quando aprendemos a ser felizes com a própria companhia. Porque, antes de encontrar alguém que queira ficar, precisamos estar bem conosco mesmos.

A cabecinha da Theodora é um pouco mais delicada. Tenho a impressão de que cancerianos gostam de sonhar acordados. De criar expectativas, imaginar futuros perfeitos e, muitas vezes, esquecer que a vida acontece no presente. Foi assim em seu último relacionamento. Ela queria construir algo maior; ele queria apenas viver o momento e, quem sabe, curar algumas feridas que ainda carregava.

Outra característica marcante da Théo é acreditar que as pessoas podem mudar por causa do amor e da dedicação que ela entrega. Já perdi as contas de quantas vezes disse a ela que não funciona assim. Ninguém muda porque alguém deseja. As mudanças acontecem quando partem da própria pessoa.

É preciso criar expectativas sobre nós mesmos. Escolher a nós mesmos todos os dias. Construir uma vida que faça sentido por conta própria e não passar a vida inteira esperando que alguém a complete.

É preciso se amar por inteiro e se sentir segura para que alguém incrível possa chegar e escolher ficar.

Ultimamente tenho sentido a Théo desacreditada da própria presença, da própria capacidade. E isso me entristece. Ela é tão incrível, mas acho que, depois de tantas desilusões, já não consegue enxergar a grande mulher que é. Aos poucos, vai perdendo a força, a alegria e o entusiasmo que sempre fizeram parte dela.

Mas nós já conversamos sobre isso. Suas desilusões só aconteceram porque expectativas de um futuro incrível foram construídas sobre as pessoas erradas. E mesmo diante de todos os sinais, ela continuava sonhando. Continuava amando sozinha.

Théo é muito romântica, disso vocês sabem! Acredito que isso seja resultado da soma de todos os filmes de romance que assiste diariamente. Talvez ela se veja um pouco em cada personagem e espere viver um daqueles finais felizes que aparecem nas telas. O problema é que a vida real quase nunca segue o roteiro dos filmes.

Mas, no fim das contas, o que vale é o próximo passo. Théo está fazendo terapia. E isso tem sido importante. O desafio é que ainda existe muita resistência em falar sobre os próprios sentimentos. Abrir as dores, admitir as fraquezas e encarar algumas verdades exige coragem. Aceitar não ser escolhida dói. Mas dói muito mais carregar feridas abertas por anos sem permitir que elas cicatrizem.

Com o tempo, ela também está aprendendo que saudade nem sempre é sobre algo bonito que se viveu. E que nem toda saudade é sinal de amor. E também que os momentos bons não apagam os ruins. E, às vezes, os ruins foram tão intensos que deveriam ser suficientes para nos impedir de olhar para trás.

Nem tudo o que queremos serve para permanecer. Nem todo amor é para ser vivido para sempre. Insistir em algo que trouxe mais tristeza do que felicidade é se afastar cada vez mais de si mesma. E o caminho de volta pode ser longo. Mas eu tenho certeza de que ela vai conseguir encontrá-lo. 

Quero acreditar que essa fase é apenas o seu período de inferno astral, aquele que antecede o aniversário, e como a data foi celebrada ontem, vamos torcer para que ela logo logo volte com novas histórias.

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